Economia brasileira só começa a melhorar em 2017, diz Octavio de Barros, do Bradesco


Notícia Publicada em 16/02/2016 15:02

Octavio de Barros prevê dois cortes da taxa Selic até o final do ano e acredita que preço da gasolina cairá nos próximos meses


Para Octavio de Barros, ainda é cedo para apostar em uma recuperação intensa da economia, mas enxerga alguns sinais incipientes de estabilização (Reprodução/Youtube)
Para Octavio de Barros, ainda é cedo para apostar em uma recuperação intensa da economia, mas enxerga alguns sinais incipientes de estabilização (Reprodução/Youtube)

SÃO PAULO – As instabilidades que afetam o Brasil nos últimos meses fizeram com que economistas protelassem as suas previsões sobre uma eventual recuperação econômica do país. É o caso do economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros.

Em entrevista a O Financista, ele enxerga uma retomada apenas em 2017, sustentada pelas exportações e pela melhora do consumo doméstico. Barros, porém, alerta que as commodities - que vem ditando o ritmo dos mercados em 2016 - devem continuar sofrendo com as condições externas desfavoráveis e os preços internacionais reduzidos.

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“Vemos alguns sinais incipientes de estabilização da atividade econômica. Os dados de confiança dos consumidores e empresários pararam de deteriorar, as exportações dão sinais de alguma retomada gradual, com câmbio mais favorável, e as surpresas fiscais negativas estão se acomodando. Dito isso, ainda é cedo para apostar em uma retomada rápida e intensa”, explica Barros.

Indagado sobre a política monetária, o economista-chefe do Bradesco afirmou que a decisão de manter a taxa de juros na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) se pareceu ainda mais acertada no decorrer dos dias. O Bradesco acredita que a taxa Selic fechará 2016 em 13,25%, projetando dois cortes de 0,5 p.p. nas duas últimas reuniões deste ano.

À reportagem, Barros destacou que há uma defasagem de mais de 30% entre o preço da gasolina no mercado local e os preços internacionais. Com a tendência de queda nos últimos meses, ele vê espaço para a Petrobras reavaliar os preços e pontuou que é possível vermos uma redução do combustível nos próximos meses.

Leia, a seguir, a entrevista de O Financista com Octavio de Barros:

O Financista: Como o senhor vê os atuais problemas do Brasil?

Octavio de Barros: O Brasil passa por um momento de ajustes, em função da reversão de um longo ciclo internacional de preços de commodities elevados e do esgotamento do modelo de crescimento baseado no consumo doméstico, na ampliação do crédito e na expansão fiscal até 2013/2014.

O encerramento desses dois ciclos traz novos desafios ao país. Requer, em primeiro lugar, um equacionamento fiscal, para que o Brasil garanta uma trajetória de dívida vista com tranquilidade pelos nossos financiadores. Isso passa por regras previdenciárias mais modernas, que lidem com a expectativa de vida crescente no Brasil. Passa também pela discussão sobre a rigidez de alguns gastos obrigatórios, que requerem mudanças constitucionais, dando mais flexibilidade à gestão financeira do Estado.

Não menos importante, é a continuidade de avanços institucionais que garantam estabilidades de regras para investimentos de longo prazo, em particular nas áreas de infraestrutura e de energia, que têm um amplo espaço de atração de investimentos privados.

Em um ambiente de restrição fiscal, o setor privado deve cumprir papel ainda mais relevante na propulsão de investimentos e, se possível, incorporar maior conhecimento tecnológico que permita ao país voltar a competir de forma mais intensa no comércio internacional.

Com câmbio real mais alinhado, após a depreciação ocorrida em 2015, estamos em posição mais favorável para acessarmos novos mercados, aprofundar o processo de abertura da economia e participar mais ativamente nas cadeias globais de produção.

O Financista: O senhor acredita em uma recuperação no curto prazo?

Octavio: Vemos alguns sinais incipientes de estabilização da atividade econômica. Os dados de confiança dos consumidores e empresários pararam de deteriorar, as exportações dão sinais de alguma retomada gradual, com câmbio mais favorável, e as surpresas fiscais negativas estão se acomodando. Dito isso, ainda é cedo para apostar em uma retomada rápida e intensa. Para começarmos a enxergar a retomada à frente, é preciso vermos antes sinais mais consistentes de estabilização e acreditamos que estes sinais iniciais devam se consolidar como uma tendência ao longo dos próximos meses.

O Financista: Em que ano a economia brasileira deve ensaiar essa retomada?

Octavio: Com a estabilização das condições econômicas nos próximos trimestres é muito possível vislumbrarmos uma retomada moderada a partir de 2017. Prevemos um crescimento de 1,5% para o ano que vem. Por questões estatísticas, é muito difícil que os números sejam positivos ainda em 2016. Iniciamos o ano com uma base muito baixa em relação a 2015, o que contrata um PIB negativo para 2016, mesmo com sinais de estabilização já ocorrendo na margem.

O Financista: Qual será a base da recuperação econômica do país?

Octavio: As principais forças que impulsionarão a retomada em 2017 serão, em primeiro lugar, as exportações, que devem continuar a responder positivamente ao câmbio real mais favorável – em particular no setor manufaturado, que já tem acessado mercados que não conseguia há tempos.

Além disso, é razoável esperar que o consumo doméstico tenha uma leve melhora a partir de 2017, com a estabilização do mercado de trabalho e da confiança dos consumidores.

Do lado desfavorável, ainda haverá restrição em algumas cadeias de commodities, que permanecerão sofrendo com condições externas desfavoráveis e preços internacionais reduzidos. Isso deve conter o crescimento dos investimentos nesses setores.  

O Financista: As previsões do mercado para queda do PIB do Brasil este ano já beiram os 3%, o que marcaria o segundo ano seguido de retração. O que explica uma recessão tão forte?

Octavio: Passamos por uma conjunção de fatores restritivos ao longo de 2015 e neste começo de 2016. No cenário internacional há uma desaceleração da economia chinesa com reflexos nos preços das commodities, que têm afetado uma ampla cadeia de empresas produtoras nacionais.

Além disso, o processo de normalização de juros do Fed, iniciado no final do ano passado, trouxe uma apreciação global do dólar que ajudou nossa moeda a depreciar de forma mais intensa em 2015, com efeitos secundários sobre nossa inflação.

De forma simultânea a esse cenário internacional desafiador, internamente, houve adequação dos preços de energia e da gasolina, redução dos subsídios ao crédito dos bancos públicos, reversão de algumas desonerações e alguns aumentos de impostos para lidar com a situação fiscal desafiadora do ano passado.

Por fim, eventos não econômicos vindos do campo político e jurídico foram importantes fontes de instabilidade financeira e econômica em 2015, o que tornou a recessão ainda mais severa.

A soma de todos esses fatores resultou em uma retração substancial do produto, com queda da arrecadação tributária ainda mais intensa que a redução do PIB. Isso trouxe um novo desafio fiscal para 2016, realimentou a depreciação cambial e a inflação de curto. Nesse ambiente, as políticas monetária e de crédito também atuaram de forma contracionista.

O Financista: Com Nelson Barbosa no comando da Fazenda, o senhor acredita que o país tem mais chances de se recuperar?

Octavio: O ministro Nelson Barbosa já mostrou em diversas oportunidades que tem um diagnóstico claro dos desafios que o Brasil enfrenta. Neste curto período como ministro já tem endereçado a discussão de reformas fiscais de médio prazo que podem nos levar a um novo patamar das instituições fiscais.

Estão colocados sobre a mesa temas de grande relevância como a reforma da Previdência e regras para limitar os gastos públicos. A predisposição em discutir temas importantes tem sido demonstrada pelo ministro. Se haverá condições políticas para que as coisas avancem ainda é um ponto de interrogação.

Temos visto alguns sinais de maior disposição em discutir e avançar nos temas que interessem ao país, independentemente das forças políticas. Além das questões de médio prazo, o ministro, em conjunto com a presidente, tem insistido na necessidade da aprovação da CPMF, e da regulamentação da lei de repatriação, como pontes para atravessar esta fase mais aguda de desafios fiscais que ainda persistirá em 2016.      

O Financista: Quais são as projeções do Bradesco para a taxa de juros neste ano?

Octavio: Acreditamos que os efeitos da recessão doméstica farão o IPCA desacelerar gradualmente para 6,9% no final deste ano, permitindo ao BC que comece a reduzir os juros. Projetamos que a Selic encerre 2016 em 13,25% a.a., com dois cortes de 50 pontos-base nas duas últimas reuniões do ano.  

O Financista: Após a mais recente decisão do Copom, o senhor me disse que a gasolina cairá nos próximos três meses. O que o leva a acreditar nisso?

Octavio: Existe uma defasagem de mais de 30% entre o preço da gasolina no mercado local e os preços internacionais. A queda do preço do petróleo e da gasolina foi expressiva nos últimos meses, o que, em tese, abre espaço para a Petrobras reavaliar os preços no mercado local. A companhia deverá pesar suas necessidades financeiras também, mas acreditamos que há espaço para uma redução, ao menos parcial, desta defasagem em algum momento dos próximos meses.

O Financista: O Ibovespa deve atingir o patamar dos 30 mil pontos e ir ladeira a abaixo ou se recuperará?  Quais são as projeções do senhor para o índice?

Octavio: Apesar de todos os desafios que ainda virão à frente, uma queda adicional de 25% no Ibovespa nos parece agressiva e levaria a preços de ações a ser tornarem atrativos em vários casos. Não acreditamos nesse cenário de mais 25% de queda do índice.

Não temos uma projeção especifica para o Ibovespa, mas a moderada recuperação econômica que vislumbramos adiante, e as quedas do Ibovespa já ocorridas em 2015, não nos sugerem um novo ajuste dessa magnitude em 2016.  

O Financista: Sobre o cenário externo, o que preocupa de China, Europa e EUA?

Octavio: Na China, nossa maior preocupação está em um possível esgotamento do grande ciclo de crédito e endividamento vivido nos últimos anos. Os sinais do setor imobiliário, das vendas de automóveis e das deflações continuadas dos preços industriais são sintomas de um possível estado febril da economia chinesa.

A China detém mais de US$ 3,1 trilhões em reservas internacionais, e algum espaço fiscal do governo central para suavizar esse processo de desaceleração, mas as preocupações de que possa haver um movimento mais desordenado são crescentes.

Evidências de excesso de oferta industrial em diversos setores se acumulam e isso pode requerer um ajuste mais intenso de capacidade produtiva, seja via consolidação ou via fechamento de plantas, o que poderia resultar em crescimento da inadimplência. Haveria reflexos sobre a dinâmica de crédito geral da economia nesse caso.

Na Europa, a maior vulnerabilidade continua sendo o sistema bancário, que, apesar dos ajustes dos últimos anos, em alguns casos, continua com estrutura de capital apertada e muito sensível ao bom desempenho de suas carteiras de títulos públicos e baixa inadimplência de crédito. Em uma possível reversão dos juros dos títulos públicos, ou piora na inadimplência de crédito, ainda existem bancos vistos como frágeis, em especial na Itália.

Nos Estados Unidos, existe um risco de que a queda intensa do petróleo possa afetar a cadeia do setor de forma intensa, com redução de investimentos e alguma desaceleração econômica de curto prazo. Entretanto, vemos o setor financeiro com capacidade de absorver esse choque e a economia americana com força para, mesmo em um cenário adverso, continuar com um desempenho saudável (PIB crescendo entre 1,5% a 2%).  

O Financista: E o que desses países pode representar um alívio para a economia global?

Octavio: Uma ação mais coordenada dos países avançados e China na política monetária e fiscal pode contrabalançar os riscos hoje existentes. Apesar de alguns países estarem com seus instrumentos mais limitados (fiscal na Europa, monetário e fiscal no Japão), ainda há espaço para a política econômica responder à contração cíclica da atividade econômica.

Em particular na China, uma utilização das reservas internacionais e um ajuste mais contundente da política cambial podem tornar o ajuste mais rápido, revertendo algumas expectativas mais negativas sobre a economia do país.

O Financista: Como o senhor enxerga a tendência das commodities neste ano? O petróleo deve continuar preocupando? Cairá abaixo dos US$ 20 ainda em 2016?

Octavio: É bom separar as commodities em alguns grupos. Nas agrícolas, apesar das boas safras previstas para 2016, vemos um cenário de relativa estabilidade de preços. A demanda desses produtos é pouco elástica ao PIB, e uma desaceleração moderada do PIB global não deve trazer grande queda de demanda.

O petróleo apresenta um balanço bastante desfavorável para os preços em 2016. Além da demanda enfraquecida, vinda da desaceleração do PIB global e da gradual substituição por energias alternativas, existe uma entrada de oferta nova vinda da volta do Irã ao mercado internacional e da retomada da produção do Iraque.

Ao mesmo tempo, há uma descoordenação grande entre os membros do oligopólio (OPEP) e os países de fora dele, além de uma resistência maior dos produtores norte-americanos do petróleo de xisto, de parar sua produção ao ajustarem drasticamente seus custos.

Tudo isso nos leva a esperar um cenário de preços baixos por um período mais longo, com implicações sobre a inflação global, sobre alguns países dependentes da exportação de petróleo e sobre empresas e cadeias produtivas do setor.    

O Financista: E o minério de Ferro?

Octavio: O minério caiu bastante nos últimos dois anos e está em um nível que muitas empresas não se sustentam. A oferta adicional prevista para entrar no mercado em 2016 e 2017 ainda ocorrerá, mas não há qualquer novo investimento no setor, e algum fechamento de minas já ocorre.

Como a demanda não deve se recuperar, dada a expectativa de fragilidade da economia chinesa, é razoável esperar preços ainda deprimidos por mais tempo. Há a possiblidade de ainda haver alguma queda adicional marginal neste cenário chinês.

O Financista: Petrobras e Vale estão preocupando bastante. Devem continuar dando dor de cabeça? Quais outras empresas merecem nossa atenção neste sentido?

Octavio: Todas as empresas mundiais destes dois setores devem ser fonte de preocupação e de monitoramento. As duas empresas têm feito um esforço grande para se ajustarem à nova realidade dos mercados internacionais. Redução de Capex, venda de ativos que não são core de seus negócios, reduções de custos, entre outras medidas, estão sendo tomadas para preservar o caixa e a capacidade financeira das empresas.

É importante diferenciar o grau de alavancagem e perfil de dívida das duas companhias. Isso coloca a Vale em uma posição um pouco mais favorável para atravessar este período desafiador em relação à Petrobras, que está em uma fase do ciclo de negócios que ainda requer investimentos elevados (no pré-sal principalmente), em contraponto ao ciclo já mais maduro da Vale. As empresas da cadeia de petróleo e de mineração/siderurgia devem ter nossa atenção pelo cenário internacional desfavorável.    

O Financista: Que ações ou setores devem se destacar positivamente neste ano?

Octavio: Em anos de perspectivas de baixo crescimento, inflação elevada e cenário internacional conturbado, os setores mais defensivos, com fluxos de caixa mais estáveis e alavancagem controlada, devem ter melhor performance.

Enquadram-se neste perfil empresas grandes e diversificadas nos setores de supermercados, bebidas e concessionárias que atuem em áreas com regras mais estáveis, como rodovias e portos.

Ao mesmo tempo, empresas que se beneficiem da moeda depreciada, sem grande queda de seus preços internacionais, e alavancagem moderada podem ser interessantes, como papel e celulose.  

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